domingo, 2 de maio de 2010

Um trechinho....

Dispersão 
 
Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto
E hoje, quando me sinto.
É com saudades de mim.

Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar,
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida...

Para mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem. .
 

Como se chora um amante,
Assim me choro a mim mesmo:
Eu fui amante inconstante
Que se traiu a si mesmo.

Não sinto o espaço que encerro
Nem as linhas que protejo:
Se me olho a um espelho, erro
Não me acho no que projeto.

Regresso dentro de mim
Mas nada me fala, nada!
Tenho a alma amortalhada,
Sequinha dentro de mim.

Não perdi a minha alma,
Fiquei com ela, perdida.
Assim eu choro, da vida,
Eu nunca vi... mas recordo

(As minhas grandes saudades
São do que nunca enlacei.
Ai, como eu tenho saudades
Dos sonhos que sonhei!... )

E sinto que a minha morte —
Minha dispersão total —
Existe lá longe, ao norte,
Numa grande capital.

Perdi a morte e a vida,
E, louco, não enlouqueço...
A hora foge vivida
Eu sigo-a, mas permaneço ... 

  
Mario de Sá Carneiro

3 comentários:

  1. Trechinho,olha o tamanho disso mulher!!!
    kkkkkkkkkkkkkkkkkk
    massa!

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  2. kkkk é q é enorme o poema, peguei só um pedaço.

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  3. amei tudo, mas amei mais ainda e por inteiro essa parte:
    "Como se chora um amante,
    Assim me choro a mim mesmo:
    Eu fui amante inconstante
    Que se traiu a si mesmo".

    Me senti nesse trecho, acho que sou amante de mim mesma.É.

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